Meu corpo, minhas regras…

Meu corpo.  Texto escrito por Adriana Vieira, doula e educadora perinatal conceituadíssima que nos leva à uma reflexão sobre essa frase que soa muito atualmente…Meu corpo, minhas regras. Mas será mesmo? Eu sou prova viva, pois tive que passar por muitos obstáculos durante meu pré-natal e parto para conseguir poder ter a chance de receber o Théo por via natural e de maneira humanizada. Tive que ir com a lei do parto em mãos à maternidade porque sabia dos problemas relativos à acompanhantes e tinha conhecimento dos meus direitos. Vamos ao texto…

Meu corpo

Sim, essa frase parece óbvia, pois somos os únicos realmente a ter o direito ao nosso corpo e ao que será feito com ele! Mas será que é isso que acontece no dia a dia das mulheres? Será que as gestantes que procuram ter um parto normal, natural, domiciliar, vaginal, enfim, são respeitadas, são ouvidas? Será que quando estão prestes a parir num hospital público, são acolhidas e respeitadas? E aquelas que são bem informadas e questionam seus médicos, ou o hospital, são bem atendidas?

Índices alarmantes confirmam que não! Que a maioria das mulheres não nenhum dos seus direitos respeitados durante o parto. Triste realidade brasileira.

Numa pesquisa feita pela Fundação Oswaldo Cruz, intitulada “Nascer no Brasil”, apenas 28 % da mulheres que começam o pré-natal, dizem que querem cesárias. Esse número já é alto em relação a médica mundial, que é de apenas 10% cogitam ter uma cesariana, quando ainda estão grávidas, mas é baixa ainda em se compararmos com o resultado final do que acontece país, onde mais de 55% das mulheres caem numa cesária eletiva, ou seja, sem necessidade realmente.

Vejam, pelo menos 72% das brasileiras pensam em ter um parto normal durante a gravidez, e com o passar do pré-natal isso vai mudando.

Médicos que deveriam fazer o papel de falar as verdades sobre todos os tipos de parto, ou seja, os prós e contras de cada parto, pra mãe e para o bebê, atualmente – a maioria, e não todos, claro- enaltecem apenas o lado ruim do parto normal, e as mães acabam optando por uma cesária eletiva, muitas vezes antes da hora do bebê estar maduro, o que pode acarretar problemas pra essa criança, o resto da vida.

De acordo com Maria do Carmo Leal, coordenadora da pesquisa acima citada, os resultados são alarmantes, já que a intervenção cirúrgica esnecessária e antes da hora correta, expõe a mãe e o bebê a riscos desnecessários.

“Um prejuízo que a criança pode ter é ela nascer antes do tempo que estaria pronta para nascer e, portanto, pode ter dificuldade para respirar, pode precisar ir para uma UTI [Unidade de Tratamento Intensivo] neonatal, e isso é um imenso prejuízo no começo da vida, essa separação da mãe. Para a mãe, o primeiro risco é que a cesárea é uma cirurgia, e como tal tem maior chance de hemorragia, de infecção, e também a recuperação da mulher é pior na cesárea do que no parto vaginal”, comparou.

Como doula e educadora perinatal, dou consultoria também em relação ao aleitamento materno, vejo ainda o prejuízo grande causado por cesárias eletivas em relação ao aleitamento. Mães que são fadadas a cirurgia antes da hora do trabalho de parto tem mais dificuldades com a descida do leite, e os bebês também, pois estão com resquícios da anestesia e cansados, e nem sempre reagem bem a primeira hora pois parto, que é de extrema importância para o vínculo entre mãe e bebê.

Segundo a coordenadora da pesquisa, há uma cultura no Brasil de que a cesária é um forma boa de nascer, e isso é conveniente para os médicos, que acabam podendo ter suas agendas de consultório e finais de semanas, organizadas. Então, acabam induzindo a cirurgia, isso é muito claro, confirma Maria do Carmo. Com isso, nossos índices de cesária no Brasil é um dos mais altos do mundo, com prejuízos enormes aos bebês, e que ninguém divulga.

Precisamos então de políticas públicas que incentivem o parto normal, e estamos vendo que essas mudanças estão acontecendo, pelo menos em nível jurídico, ou seja, estão sendo criadas leis e resoluções que ajudam a incentivar baixar o número de cesárias eletivas, desnecessárias.

Mas não é apenas isso que precisamos não. Precisamos que as equipes que lidam com o parto, ou seja, médicos, enfermeiras, técnicos de enfermagem, doulas, obstetrizes, etc tenham um outro olhar em relação as gestantes.

Precisamos de pessoas que gostem do que fazem, que lidem com amor com essa grávidas, que na maioria das vezes estão com medo do que irá acontecer, com medo da dor, do desconhecido, do novo, que é o parir!!!

Precisamos também cuidar de como esse parto irá acontecer, pois o parto normal e vaginal pode ser uma experiência linda e amorosa, se tiver rodeado de pessoas que saibam fazer isso acontecer, mas pode também ser algo traumático, e isso vejo todos os dias acontecer nos hospitais, públicos e privados.

Não podemos mais continuar ouvindo dos médicos que a episiotomia – mutilação na vagina, que chamam de “cortinho – seja algo que aconteça de rotina, em todos os partos. Precisamos sim que os médicos ensinem as mulheres a trabalharem o períneo durante a gestação, para que ela não tenha laceração ao parir. Hoje, as doulas e fisioterapeutas estão ensinando as mulheres a fazer esses exercícios, a utilizar o epi-no e a conduzirem melhor seus partos.

Precisamos dar alternativas para as mulheres, para que elas façam suas escolhas de parto, conscientes!!!

Meu corpo

Uma outra pesquisa com o tema: Mãe Sabe Parir e o Bebê Sabe Como e Quando Nascer, mostra que, mesmo nos partos normais, o atendimento não atende às boas práticas recomendadas pela OMS, o que provoca dor e sofrimento desnecessário. Entre as práticas comuns estão a de deixar a mulher em trabalho de parto apenas no leito, sem estímulo para caminhar e sem alimentação durante o período, a de oferecer remédios para acelerar as contrações- ocitocina; e a de deixar as mulheres darem à luz deitadas, de costas, sem poder escolher uma posição adequada pra ela, que se sinta conforável para parir.

Os dados ainda apontam que, no Brasil, entre as mães de baixo risco, apenas 19,8% tiveram presença contínua de acompanhante – o todas tem esse direito garantido, pela Lei: 11.108 – , 25,6% puderam se alimentar, 46,3% foram estimuladas a se movimentar e apenas 28% tiveram acesso a procedimentos não farmacológicos para alívio.

Então, não adianta ter Lei e resoluções se as instituições, como os hospitais, não fazerem acontecer as leis. Elas servem pra garantir os direitos da mulher, e precisamos fazer valer esses direitos.

Uma mulher em trabalho de parto deve ter privacidade, deve ser respeitada como mãe, mulher, e ter eu companheiro com ela. Ele também precisa ser avisado do que está acontecendo, e não apenas ser tratado com alguém coadjuvante, já que esse bebê foi feito pelos dois: pai e mãe.

Enfermeiras, pediatras, obstetras, técnicos de enfermagem, não devem ficar entrando em saindo do quarto da gestante em trabalho de parto, e perguntando dez vezes as mesmas coisas. Uma gestante, para parir, precisa de silêncio, de ser preservada, de se sentir segura e acolhida.

Espero que nesse dia da mulher possamos festejar, não apenas com novas Leis que nos ajudem a garantir nossos direitos básicos, de respeito a parturiente e seu bebê e companheiro, mas também que possa haver uma maneira de mudar o que se aprende nas faculdades de medicina, de enfermagem, e técnicos que lidam com a saúde da mulher, para que o parto seja visto como um grande e lindo evento do casal, dessa nova família que se forma, e não algo mecânico e técnico.

Creio na força da mulher, do feminino, e acredito que apenas nós poderemos fazer essa mudança acontecer, estando bem informadas e focadas naquilo que queremos.

Um feliz mês da mulher, e que possamos fazer valer: meu corpo, minha regras…

Aqui um resumo das leis e resoluções aprovadas que garantem alguns benefícios para as gestantes, no Brasil

Lei do Acompanhante (clique aqui)

Lei assento prioritário (clique aqui)

Lei vagas estacionamento para gestantes e mães com bebês (clique aqui)

Lei contato primeira hora pós nascido (clique aqui)

Resolução para estimular parto normal no Brasil (clique aqui)

 

Adriana Vieira, doula, instrutora de ioga pré-natal, e educadora perinatal. Mãe de três filhos e que é feliz demais por ter tido um parto normal após duas cesárias.

 

Adriana Vieira

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